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É Desporto

A bengala da formação

Adrien Silva e Gelson Martins representam duas gerações de formação/A Bola

O que é apostar na formação? Quantos jogadores devem subir por temporada? Jorge Jesus está a destruir a aposta na formação no Sporting? E lá fora, o Barcelona pode ser utilizado como modelo? Os argumentos divergem sobre o que se está a passar no futebol português mas por vezes tem-se esquecido o contexto e as razões estruturais que estão por trás das escolhas.

 

Conversa de elevador?

 

A palavra “formação” está a ficar para a discussão no futebol como dissertar sobre a meteorologia está para as conversas de elevador. Não por não ser pertinente mas porque começa a ser fácil usá-la como bengala de argumentos que variam de período para período, de acordo com a conveniência.

 

Quando se fala de formação em Portugal, o Sporting assume naturalmente o maior protagonismo. Porque lançou Figo e Ronaldo, dois Bolas de Ouro, e porque, durante mais tempo e de forma mais sustentada, soube dar a conhecer inúmeras figuras do futebol nacional, internacional e da seleção.

 

Se Futre, Figo, Simão, Quaresma, Hugo Viana e Ronaldo formam a primeira linha de destaques claros, só a partir de 2005, ainda com José Peseiro como treinador, o Sporting começou a vestir mais seriamente a bandeira da formação em continuidade.

 

João Moutinho desbravou um caminho que muitos outros aproveitaram, já com Paulo Bento. Nunca chegou a ser essa a disposição em campo, mas o treinador chegou a poder formar um meio-campo com Miguel Veloso, Adrien Silva, João Moutinho e Nani.

 

Força do contexto

 

O presidente era Filipe Soares Franco e ainda mais em voga do que a formação estava a contenção financeira. E é essa contenção que, de uma forma inevitável, seja no Sporting, no Benfica ou no FC Porto, dita da melhor maneira a aposta na formação.

 

Ao perceber que tinha mais a ganhar, e menos a gastar, ao aproveitar numa geração de formação com qualidade, os leões caminharam para uma estratégia inevitável que foi recebida de bom grado pelos seus adeptos. Afinal, diga-se o que se disser, o orgulho de ter um jogador a sair da cantera, chame-se Gelson Martins, Renato Sanches ou André Silva, existe e gera maior identificação do que um Bryan Ruiz, um Fejsa ou um Brahimi.

 

Quando o Sporting bateu no fundo, com Godinho Lopes na presidência, foi também bafejado pela sorte. Por mais que se aposte na formação, é impossível garantir resultados anualmente. Há naturalmente gerações que são melhores do que outras e algumas em que não há um único jogador que se assuma como uma certeza para o futuro.

 

Ora, em 2013, os leões tinham uma das melhores gerações da sua história a despontar. Com Tiago Ilori, Eric Dier, Bruma e João Mário (as quatro vendas mais recentes da formação), e também com nomes como Cédric, William Carvalho, Adrien e o já consolidado Rui Patrício, o Sporting conseguiu reconstruir-se a baixo custo, ou pelo aproveitamento em campo ou pelo que conseguiu com as vendas.

 

O que mudou?

André Silva e Ruben Semedo são produtos da formação/FC Porto

O Sporting de 2016 está radicalmente diferente do Sporting de 2013. O sufoco financeiro é um pesadelo cada vez mais distante e o clube tem hoje um fôlego diferente, mais semelhante ao que os rivais FC Porto e Benfica foram apresentado nos anos mais recentes.

 

O recrutamento estrangeiro aumentou porque as condições mudaram. Se em 2013 era vendido um avançado por dez milhões de euros (valores arredondados) para pagar salários em atraso, hoje compra-se um por dez milhões para substituir um outro que saiu por mais do que o triplo.

 

O futebol é feito de ciclos e o Sporting está a dar a volta ao seu. Não esquece a formação, Gelson Martins e Ruben Semedo estão a lutar para consolidar os seus lugares ao lado de Rui Patrício, William Carvalho e Adrien, mas não está obrigado pelo contexto a apostar nela.

 

Se estivéssemos em 2013, não restariam dúvidas que talentos como Iuri Medeiros, Francisco Geraldes e Tobias Figueiredo, para citar apenas três, teriam um lugar reservado no plantel com minutos à espera.

 

Agora mudou. A exigência mudou. O treinador mudou. Não quer dizer que não venham a ser aposta – nem que o serão indubitavelmente – mas já não terão esse espaço reservado para amadurecer enquanto jogam num clube cujos objetivos foram sempre o título.

 

O que vai mudar?

 

O ciclo vai continuar a progredir e a tendência é para que o número de apostas se reduza nos próximos anos. É redutor pensar que a única explicação para esse fenómeno, caso aconteça, se centre em Jorge Jesus.

 

A questão é que não é todos os anos que jogadores como William Carvalho, João Mário e companhia saem da formação. Se a equipa B em 2012 conseguiu reunir uma série de jogadores que tinham a equipa principal escrito na testa, a atual comprova que esse rácio está a diminuir.

 

A explicação para isso? Há mais do que uma. E, mesmo que não seja a principal, é garantido que nem todos os ciclos são idênticos, nem todos podem assegurar talentos a cada fornada de sub-19 que sobe ao futebol sénior.

 

Basta recuar vinte anos. Figo (1972), Beto (1976), Simão (1979), Quaresma (1983), Hugo Viana (1983) e Ronaldo (1985) surgiram num espaço de 14 anos e foram os únicos a conseguir ter verdadeiro destaque na equipa principal, com Custódio a entrar numa segunda linha.

 

O grande desafio para o Sporting, tal como para Benfica e FC Porto, é conseguir encontrar um equilíbrio perfeito entre quem sobe da formação e quem entra de fora. É essa a chave para o sucesso – na luta pela formação e na luta pelos títulos – que é partilhada por todos, inclusivamente pelo Barcelona.

 

Valdés (1982), Puyol (1978), Piqué (1987), Busquets (1988), Xavi (1980), Iniesta (1984) e Messi (1987) formaram uma parte essencial do Barcelona de Guardiola mas apenas dois nasceram no mesmo ano – e entraram na equipa em alturas completamente diferentes.

 

Os exemplos estrangeiros, por isso, não podem ser aplicados em Portugal, mais não seja porque não há capacidade para segurar nomes como Ricardo Carvalho, Renato Sanches ou João Mário quando começam a dar nas vistas.

 

O desafio é, e continuará a ser, conseguir aproveitar a formação para compor o plantel e ter uma ou outra aposta mais forte por época. E isto será igual para os três. Se houver crises financeiras, a aposta vai aumentar, não necessariamente por identidade mas por necessidade.

 

Discussões estéreis

 

Até lá, a bengala da formação continuará a ser utilizada como arma de discussão, nem sempre fundamentada, nem sempre informada – como não são, na verdade, a maior percentagem de discussões sobre futebol em Portugal.

 

De acordo com as intenções, a aposta na formação ou redução na aposta na formação serão defendidas conforme der mais jeito, ignorando o contexto que está por trás. Os erros de julgamento continuarão a acontecer e talentos a ser desperdiçados. Outros, nem tanto.

 

Mas quem diz jogadores da formação pode dizer também jogadores que são contratados e não rendem enquanto estão no clube, surpreendendo depois noutras paragens. É o ciclo do futebol.

 

Se fosse mais simples, se fosse mais fácil, se fosse científico, faziam-se as contas logo no início da época e o resto seria automático. Mas é muito provável que ninguém viesse a gostar disso. Deixaria de ser futebol.

 

RPS